Pular para o conteúdo
Heliene AraújoPesquisa · Inovação · Territórios
  • Início
  • Sobre
  • Agenda de Pesquisa
  • Publicações
  • Projetos
  • Coorientações
  • Currículo
  • Fotos de Campo
  • Blog
  • Contato
Heliene Araújo

Vamos trabalhar juntos?

Pesquisa, inovação e implementação para territórios mais sustentáveis e sociedades mais justas.

Entre em contato

Perfis

  • LinkedIn
  • ORCID
  • Currículo Lattes
  • Google Scholar
© 2026 Heliene Araújo. Todos os direitos reservados.
Voltar para o Blog

Blog

Uma hora aqui, outra hora lá: a trajetória profissional

Por Heliene Araújo · 9 set 2026 · 5 min de leitura

Uma hora aqui, outra hora lá. Por muito tempo achei que minha trajetória era feita de mudanças. Primeiro veio o movimento estudantil, os movimentos sociais, a agricultura familiar. Depois, as hortas comunitárias e a segurança alimentar e nutricional. Em seguida, estratégias de comercialização e mercados agroecológicos. Vieram, também, projetos de desenvolvimento territorial, a transição energética, a participação social, as agroflorestas, a restauração, as sementes e as mudas. 

Cada etapa parecia abrir uma nova direção, como se eu estivesse sempre recomeçando.  Assim, durante anos, eu contei minha história pelos locais onde passei, pelas instituições às quais me vinculei, pelos projetos que coordenei. Mas, agora, com esse hiato de vida que me tem dado prazo para olhar, percebo que essa nunca foi a verdadeira história. 

Ao longo da minha trajetória, escolhi, repetidas vezes, estudar lugares onde pessoas estavam tentando construir outras formas de viver.  Não era qualquer horta, mas uma horta comunitária. Ou qualquer mercado, mas mercados organizados em torno da agroecologia. A energia nunca foi o centro da minha atenção; me interessava como as comunidades participavam de uma transformação territorial induzida por uma tecnologia. Nunca me interessei, no Ecomuseu, pela cultura popular, pela museologia comunitária, mas me encantava com os processos coletivos, a partir disso, restauravam o território. Também, na tese, não era a agrofloresta que eu estudava, mas como as práticas coletivas de cuidado ambiental a partir de uma agência distribuída reorganizavam e produziam permanência territorial. 

De uma certa forma, olhando, assim, eu sempre me fascinei por esses processos coletivos que intentavam, na prática, responder: Como podemos organizar, na prática, outras formas de sustentar a vida? Como fortalecer essas práticas?

 Não me interessei, nunca, por manter aquilo que existia. Queria o novo. Eu buscava inventar e estar próxima de pessoas que inventavam novas formas de produzir, de comercializar, de aprender, de restaurar, de cuidar. 

Assim, não me vinculava somente à pesquisa, me implicava nesses processos. Coordenando, facilitando, refletindo, organizando, escrevendo projetos, formando pessoas. 

Foi somente agora, nessa reflexão, que consegui enxergar esse padrão de um lento processo de aproximação com a mesma pergunta. Cada pesquisa, cada projeto, cada território e cada encontro acrescentavam uma camada de compreensão sobre ela. 

Foi justamente essa a tarefa que escolhi como pesquisadora ao longo dos anos: estudar uma esperança materializada, que ganha corpo quando pessoas se organizam para produzir alimentos, plantar florestas, recuperar rios, comercializar, fazer leis, fortalecer comunidades. Enfim, o que a prática coletiva torna possível e como se persevera nessa prática, o Conatus territorial, conceito vindo da tese. 

No entanto, houve um momento em que comecei a perceber que a pesquisa também nos pesquisa. O que ocorre é que, durante esses anos, acompanhando e me implicando com organizações, movimentos, comunidades e coletivos, fui movida por esperança de encontrar experiências capazes de anunciar outras formas de viver. Eu acreditava que esses espaços guardavam respostas para muitos dos problemas que me inquietavam.

Com o tempo, a convivência prolongada foi tornando impossível sustentar esse ensejo idealizado. Passei a ver organizações que admirava reproduzindo violências, preconceitos, opressões que elas mesmas tentavam extinguir. Vi processos coletivos excluírem justamente aqueles que pretendiam incluir. Vi relações de poder atravessando iniciativas construídas em nome da emancipação. Vi conflitos que não encontravam resolução e processos que se partiam.Vi pessoas profundamente comprometidas adoecerem tentando sustentar projetos coletivos. E, muitas vezes, adoeci junto. Percebo também o quanto eu me implicava, carregando problemas que não eram meus.

Assim, essas práticas não são exemplares e tão pouco harmoniosas. Pelo contrário, são cheias de conflitos, limites, incoerências, improvisações, incertezas, relações de poder e disputas. 

Ainda assim, nelas acontece algo que me é profundamente humano: pessoas tentando, juntas, sustentar e reinventar a vida nos territórios. 

Tudo isso tem me obrigado a abandonar a busca por experiências exemplares. Talvez o Conatus Territorial nunca tenha existido devido à ausência dessas contradições. Talvez ele exista justamente porque, apesar delas, algumas pessoas continuam plantando, organizando, cuidando, ensinando, compartilhando e criando outras possibilidades de existência.

No entanto, ainda não sei se quero passar o resto da vida pesquisando essas experiências inventivas. Essa é uma pergunta que permanece aberta para mim. Mas sei que já não consigo olhar para esses processos procurando pureza.

Por fim, o que consigo elaborar, nesse momento, é que não se pode confundir compromisso com implicação. Acreditava que pesquisar significava também sustentar os processos que acompanhava. Percebo que essa posição produz um envolvimento que, muitas vezes, é insustentável: compromisso também precisa de distância. Não distância afetiva, mas distância suficiente para observar, pensar, escrever e até discordar. Sem isso, a pesquisa corre o risco de se tornar apenas mais uma tarefa dentro da organização.

Assim, de forma sincera, concluo que, de uma certa maneira, continuo comprometida, por aquilo que construí em meu ser, em relação a essas iniciativas. No entanto, ainda com questões em aberto, direciono a partir daqui, que minha principal contribuição não é sustentá-las mais diretamente. 

Tenho desejado produzir conhecimento e reflexões que permitam compreendê-las melhor, ampliando a capacidade coletiva de aprender com elas, inclusive analisando-as mais criticamente do que eu fiz até então.